Esta semana seus filhos auditam o seu celular: o questionário de tempo de tela ao contrário
Por uma semana, a discussão sobre tempo de tela troca de lado: os filhos fazem as perguntas e os pais respondem. Dez perguntas, uma IA que transforma as respostas em pontuação da família e um combinado com uma regra por pessoa, adultos incluídos.
Seu filho sabe exatamente quantas vezes você olhou o celular no jantar de hoje. Ele sabe porque contou, e porque nós ensinamos a contar: toda vez que mandamos largar o tablet, ele aprende a reparar em quem está com uma tela na mão. A proposta desta semana é simples e um pouco desconfortável: o questionário vai para a mão dele. Durante sete dias, os filhos perguntam e os pais respondem, com o celular na frente e a estatística de uso aberta.
Existe um motivo além da justiça poética. Em 2018, Brandon McDaniel e Jenny Radesky publicaram na revista Pediatric Research um estudo com 183 casais com um filho de zero a cinco anos, respondendo a questionários no início e depois de um, três e seis meses. O que eles mediram foi a interferência da tecnologia nos momentos entre pais e filhos, o que chamam de tecnoferência: o celular que entra no meio da brincadeira, da refeição, da história antes de dormir. Encontraram uma relação nos dois sentidos: quanto mais o celular entrava no meio, mais comportamentos difíceis a criança mostrava com o tempo, e quanto mais difícil a criança, mais estresse os pais sentiam e mais se refugiavam no celular. É um estudo de questionário, com crianças pequenas, e os próprios autores falam em associações, não em causas. Mas o círculo que eles descrevem qualquer um reconhece: dia pesado, celular, criança mais manhosa, mais celular.
O questionário: dez perguntas que os filhos fazem
- Hoje de manhã, o que você tocou primeiro: o celular ou alguém da família?
- Quantas vezes você olhou o celular no jantar de hoje? Eu contei, então pensa bem.
- Quando eu conto alguma coisa da escola, você larga o celular ou continua olhando enquanto diz aham?
- Onde o seu celular dorme? No seu quarto, do lado da cama?
- Qual é o seu tempo de tela desta semana? Me mostra no celular, não fala de cabeça.
- Qual aplicativo você abriu mais vezes? Você sabia antes de olhar?
- Quando você espera no sinal, na fila ou no consultório, você pega o celular sem pensar?
- Você disse só um minutinho hoje enquanto olhava a tela? Quanto durou o minutinho?
- Quando fazemos a lição ou você lê uma história para mim, o celular fica em cima da mesa com a tela para cima?
- Se eu tivesse o seu tempo de tela, você me diria alguma coisa?
As regras do jogo são três. Responde-se com o celular na mão e a estatística de uso aberta, porque a memória dos adultos sobre o próprio celular é muito generosa. Os filhos fazem as perguntas, não os comentários: a pergunta cinco vem sem gracinha no final. E nenhuma resposta é castigada nem discutida, nem a de um adulto nem a de uma criança: esta semana a gente olha, não julga.
O prompt que transforma tudo em pontuação da família
Somos uma família de [NÚMERO] pessoas: [LISTA COM NOME OU APELIDO E IDADE, por exemplo mãe 41, pai 43, Júlia 10, Miguel 7]. Esta semana os filhos fizeram aos pais um questionário sobre o uso do celular. Aqui estão as dez perguntas e as respostas de cada adulto: [COLE AS PERGUNTAS E AS RESPOSTAS]. Nos ajude assim: 1) Transforme cada resposta em pontos de 0 a 2, em que 2 é um hábito que protege o tempo em família e 0 é um hábito que interrompe, e explique cada pontuação em uma linha. 2) Calcule uma única pontuação da família, não uma por pessoa: não queremos ranking de quem é pior. 3) Aponte as duas perguntas em que seria mais fácil ganhar pontos na semana que vem. 4) Proponha uma regra concreta e pequena para cada membro da família, inclusive para as crianças e para o adulto com a melhor nota, pensada para ser cumprida por duas semanas. Tom caloroso e com humor, sem sermão, sem a palavra vício e sem comparar os pais entre si.Pontuação da família: 11 de 20. As duas perguntas em que é mais fácil ganhar pontos: o celular no quarto à noite (hoje 0 ponto para os dois adultos, e mudar isso custa um carregador na cozinha) e o minutinho (quando o minutinho dura mais que uma história de dormir, conta como interrupção). Regras propostas: mãe, celular fica na cozinha desde o começo do jantar; pai, o primeiro café da manhã sem tela; Júlia, o tablet volta para o lugar sem ninguém pedir; Miguel, escolhe o jogo de tabuleiro da sexta. Revisão daqui a duas semanas, com as mesmas dez perguntas.
O combinado: uma regra por pessoa, adultos também
- Cada membro da família escolhe uma regra, a sua, não a que sugeriram. A IA propõe, a pessoa decide, e assim não tem desculpa daqui a uma semana.
- Uma regra por pessoa e nenhuma a mais. Quatro regras para uma criança e nenhuma para os adultos é o combinado que não dura três dias.
- Escrito numa folha e colado na geladeira. Com data de início e data de revisão, duas semanas depois.
- No dia da revisão, os filhos fazem as dez perguntas de novo. Se a pontuação da família subiu, a família comemora; se não, muda-se a regra que não funcionou, não a pessoa.
- O que não entra no combinado: castigo. Regra descumprida se conversa e se ajusta. Se o combinado virar arma, o melhor é rasgar e começar de novo.
Quando voltar a discussão de sempre, a de que o adolescente passa horas demais no celular, você vai ter uma coisa que não tinha antes: a sua própria pontuação em cima da mesa. E ele tem a versão dele desta mesma conversa aqui no blog, a de negociar mais tempo de tela com dados e não com drama. As duas peças se encaixam melhor do que parece: a semana em que os filhos auditam os pais é a semana em que a palavra dados deixa de ser armadilha e vira regra de todo mundo.
Fontes
- McDaniel e Radesky, Technoference: longitudinal associations between parent technology use, parenting stress, and child behavior problems, Pediatric Research 84, 2018
- Negociar mais tempo de tela com dados, não com drama, While You Create
- O primeiro celular: a lista de verificação antes de ligar, While You Create
Perguntas frequentes
A partir de que idade os filhos podem fazer esse questionário?
Desde que saibam ler as perguntas ou alguém leia para eles. Uma criança de sete anos pergunta com mais graça que uma de catorze, e a de catorze faz perguntas melhores. O que muda com a idade não é o questionário, é a regra que cada um escolhe depois.
O que a pesquisa diz sobre o celular dos pais?
O estudo de McDaniel e Radesky publicado na Pediatric Research em 2018 acompanhou 183 casais com filhos de zero a cinco anos por seis meses e encontrou uma relação nos dois sentidos: mais interrupções do celular nos momentos compartilhados se associavam a mais comportamentos difíceis na criança, e uma criança mais difícil a mais estresse e mais refúgio no celular. São associações, não causas.
E se a minha pontuação sair pior que a dos meus filhos?
É o mais provável, e é exatamente o momento útil. Fala-se em voz alta, escolhe-se uma regra própria e revisa-se em duas semanas. Um adulto que assume um número feio ensina mais que um que esconde, e os filhos lembram disso quando chegar a vez deles de mostrar o próprio.
Por que uma única pontuação da família e não uma por pessoa?
Porque ranking transforma o jogo em julgamento, e julgamento acaba em briga. A pontuação da família sobe ou desce com todo mundo, e cada um tem uma única regra para fazer subir, adultos incluídos.
Este artigo ajudou você?